Um passeio pelo cemitério

Clarissa Grassi, tem uma paixão que muitas pessoas considerariam excêntrica: cemitérios! Sim, você leu certo.

Ela sempre gostou desse local porque nunca os viu como um espaço negativo e sim cheio de curiosidades, beleza e histórias. Ela conta que caminhar nos cemitérios sempre foi um tipo de catarse e o questionamento sobre os nomes de rua e os túmulos suntuosos eram constantes.

Clarissa é formada em Relações Públicas pela UFPR, especialista em Marketing pela FAE Business School e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná. Ela é também autora dos livros “Um olhar… A arte no silêncio”, “Guia de Visitação ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula – arte e memória no espaço urbano” e “Memento Mortuorum – inventário do Cemitério Municipal São Francisco de Paula”. Ah, e não para por ai… Atualmente ela é a Presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC), membro dos grupos de pesquisa do CNPq Imagens da Morte: a morte e o morrer no mundo Ibero-Americano, sediado na UNIRIO e do Núcleo de Estudos Paranaenses, sediado na UFPR.

O começo

Em 2003, Clarissa foi contratada por um cemitério particular para redigir alguns textos institucionais e teve contato com um material sobre arte tumular. A identificação foi imediata e a inspirou a fazer algumas fotos dentro do Cemitério Municipal São Francisco de Paula.

Essas imagens, quando mostradas aos amigos, geravam reações de surpresa e admiração, levando as pessoas a questionarem em que praça ficaria tal escultura. Ao serem informados que era em um cemitério, a reação era imediata e negativa: “mórbido, fúnebre, por que fotografar um cemitério?”.

Foram reações como essa que a motivaram a pensar em uma maneira de mostrar que existe sim beleza no local e que tudo depende da forma como se olha para essa arte.

“Pesquisando sobre o cemitério percebi que estava prestes a completar 150 anos de sua abertura. Surgiu então a ideia de elaborar o projeto de um livro sobre a arte tumular do Cemitério Municipal e seus significados. Um olhar curioso e detalhado sobre 54 esculturas e a simbologia que carregavam. Assim dei início aos estudos cemiteriais, pesquisando a história, o que estava envolvido na construção destes túmulos e das homenagens ali constituídas. Uma forma de tornar mais acessível à arte contida no cemitério sob um viés artístico e descontextualizada da morte”, explica a pesquisadora.

Ela diz que não imaginava que houvesse tanto tabu impregnado na temática da morte e dos cemitérios e afirma que transformar o assunto em tema para pesquisa foi um grande desafio. “Houve a necessidade de ter uma abordagem visual e artística para ludibriar preconceitos e mostrar que existe sim beleza e muitas histórias nos cemitérios, basta apenas sabermos de que forma apresentar isso. Mostrar a arte sem contextualizar diretamente a morte”.

Visitas guiadas

Já na pesquisa para o primeiro livro Clarissa se viu a frente de diversos nomes de ruas e de personalidades que fizeram parte da história de Curitiba e do Paraná. Ela percebeu que sabia os nomes de cor, mas não tinha ideia de a quem haviam pertencido ou de que trajetórias implicavam. Com o processo em andamento e o contato com as famílias, ela  lentamente foi descobrindo aspectos da história, conhecendo ciclos econômicos, políticos, empresários e artistas. Quanto mais ela aprofundava, mais percebia que a maior parte dos curitibanos desconhecia esse passado.

Foi a vontade de contribuir para que essa história fosse revisitada e para que seus personagens fossem relembrados a partir do local de sepultamento que surgiu a ideia de um segundo livro. O Guia de Visitação ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula é um apanhado das características arquitetônicas, geológicas e históricas dos túmulos e de seus ocupantes, trazendo uma visão multidisciplinar sobre diversas personalidades ali sepultadas. Entretanto, ela tinha consciência de que o livro teria um alcance limitado.

“Durante o processo de pesquisa, surgiu à ideia de popularizar esse conhecimento, de divulgar as descobertas para os curitibanos. Até porque seria impossível abarcar todas as informações no livro. Então, em paralelo ao Guia impresso, criei um roteiro dentro do Cemitério Municipal São Francisco de Paula e fui adaptando com o passar do tempo, incluindo informações conforme a pesquisa avançava. A visita é uma oportunidade de aprofundar e expandir essa seleção”, esclarece a escritora.

Em 2011 e 2012, quando as visitas ainda eram anuais, a pesquisadora buscou apoio da Fundação Cultural de Curitiba na divulgação. A partir de 2013 ela começou a contar também com o auxílio da Secretaria de Meio Ambiente para a organização. Em 2014 os passeios tornaram-se mensais devido ao sucesso e a procura.

O tour é gratuito, tem duração média de três horas e é dividido em três tipos: padrão, noturno e temático – esse sempre ligado a uma data comemorativa e contemplando um roteiro específico. “Divido as visitas em dois momentos: um primeiro onde é realizada uma contextualização a respeito da morte e da relação do homem com o morto ao longo dos séculos e o segundo que se passa dentro do cemitério, numa caminhada com os participantes. Nele falamos sobre as tipologias e referências arquitetônicas, materiais geológicos, biografias, além dos significados dentro da arte tumular. Há um pouco de tudo, anônimos, personalidades, túmulos simples, suntuosos e visões diferentes acerca da morte”, descreve Clarissa.

O maior objetivo da visita é sensibilizar a população para o patrimônio funerário. É uma forma de desmistificar o espaço cemitério, mostrando todo seu potencial como fonte de pesquisa e discurso metafórico do passado. Quando os participantes entendem as construções, as visões imbricadas e as personalidades ali sepultadas, acabam se sensibilizando e tendem a mudar a forma de se relacionar com o espaço, valorizando a necessidade de preservação. Essa é também uma forma de conhecer um pouco da arte e da história da cidade e do estado.

O público é extremamente variado englobando crianças, idosos e gente de fora da cidade que está aqui a passeio. Talvez em comum mesmo seja sempre a curiosidade! “Muitos participantes retornam outras vezes para fazer a mesma visita ou então participar das visitas temáticas. Quando questiono o motivo do retorno, dizem que são muitas informações e que a cada passeio descobrem algo diferente. Muitos trazem amigos e parentes também. A curiosidade é sempre a maior motivadora, prevalecendo sobre o medo”, revela a pesquisadora.

Entre as histórias que mais a marcaram estão aquelas em que os participantes tinham problemas com o local. “Dois casos me chamaram muito a atenção. Um foi de uma senhora que após a perda de dois membros de sua família havia desenvolvido uma fobia a cemitérios. Sua filha entrou em contato comigo depois da visita para contar que a mãe além de ter perdido o medo do cemitério havia dormido de forma ininterrupta na noite que seguiu a visita, o que era uma raridade já que sofria de insônia. O outro foi do pai de uma amiga que também tinha muito medo de cemitérios e que depois de participar da visitação não só o perdeu, como quis participar de outras. É também muito legal ver a reação das crianças, sempre curiosas, tranquilas com o espaço, realizando perguntas extremamente pertinentes e livres de qualquer tipo de tabu com a morte. Elas são inclusive frequentadoras das visitas noturnas, esbanjando a coragem que muito adulto não tem ao caminhar pelo cemitério à noite”, relata Clarissa.

“A curiosidade é sempre a maior motivadora, prevalecendo sobre o medo”
Clarissa Grassi

Experiência em livro

A escritora acredita que os livros representam a evolução do processo de pesquisa que viveu nos últimos anos. Para ela é sempre um exercício se colocar no lugar do leitor, imaginar o que pode suscitar sua curiosidade, de que forma o conteúdo pode ser disposto e claro, trata-se de uma investigação infinita, sempre com novidades e diferentes olhares.

Os livros podem ser adquiridos na livraria do Paço da Liberdade, na Praça Generoso Marques ou nas bancas de flores do próprio Cemitério.

Associação brasileira de estudos cemiteriais

A ABEC foi criada em 2004 com o objetivo de reunir pesquisadores em torno da temática dos estudos cemiteriais. A cada dois anos são realizados encontros onde os associados e a comunidade acadêmica têm a oportunidade de divulgar e debater os resultados obtidos em suas pesquisas.

“Acreditamos que essa seja uma forma efetiva de promover a temática da morte, partindo de varias abordagens e em diferentes áreas do conhecimento. Nestes 13 anos de trajetória a ABEC realizou sete encontros e o oitavo ocorreu em julho em Florianópolis – SC”, divulga a Presidente da Associação.

Ficou interessado e quer ingressar na associação? Então saiba que ela é aberta a todos e que não é necessário pertencer ao meio acadêmico. A adesão é feita mediante pagamento de anuidade. As informações podem ser obtidas no site
www.estudoscemiteriais.com.br

SERVIÇO:
Quer participar de uma visita guiada? Então consulte as datas no Guia Curitiba Apresenta da Fundação Cultural de Curitiba ou no www.facebook.com/cemiteriomunicipal
Os interessados precisam enviar nome completo e número de RG para o e-mail visitaguiada@smma.curitiba.pr.gov.br

Foto de capa | Crédito: Edgard Marques

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