O rumo de Curitiba

Assim como Paris é conhecida por ser a “Cidade Luz” ou Roma por “Cidade Aberta” a capital paranaense tem muitos nomes: “Cidade Sorriso”, “Capital Ecológica”… Mas o fato é que tudo isso se deve ao Planejamento Urbano que orienta o desenvolvimento de Curitiba há 50 anos. Baseado no tripé formado pelo uso do solo, sistema viário e transporte coletivo, o planejamento atua fortemente sobre as áreas de mobilidade e meio ambiente.

Curitiba foi, por exemplo, a primeira cidade no Brasil a ter uma rua para pedestres. Tivemos os primeiros parques criados não apenas para conservar as áreas verdes, mas também para evitar inundações. Esta também foi a cidade que criou o sistema de ônibus
Expresso, conhecido mundialmente como BRT e copiado por mais de 200 cidades ao redor do planeta. Desde os anos 1990, somos um exemplo na coleta e separação de lixo. Houve ainda a difusão de uma identidade cultural multifacetada porque aqui, em Curitiba, se fala em torno de 43 idiomas.

A capital nunca cansa de ganhar prêmios, ela é exibida. Entre 2014 e 2016, foram 27 prêmios e rankings de relevância nacional ou internacional. No ano passado, Curitiba foi eleita a melhor cidade do Brasil pelo ranking IstoÉ/ Austin Ratings. O levantamento inédito, que envolveu os 5.565 municípios brasileiros, foi feito com base em mais de 500 indicadores agrupados em quatro pilares principais: fiscal, econômico, social e digital. Além de Curitiba, o anuário também premiou as cidades em 48 categorias, dividas entre os principais indicadores utilizados pela Austin Ratings para realizar o levantamento. Curitiba foi a cidade que agregou o maior número de indicadores de excelência e, por isso, foi considerada a melhor cidade do país e também a melhor cidade de grande porte.

Na cidade, o planejamento urbano é uma preocupação que remonta ao século XIX. Já no século XX, entre 1941 e 1943, foi elaborado um plano de desenvolvimento urbano para a cidade, pelo engenheiro francês Alfred Agache, que propunha uma configuração viária radial. O plano foi entregue à Prefeitura de Curitiba em 23 de outubro de 1943. Pelo Plano Agache, foi adotado um sistema radial de vias ao redor do centro. Deixou marcas que permanecem: as grandes avenidas, como Visconde de Guarapuava, Sete de Setembro e Marechal Floriano Peixoto; as galerias pluviais da Rua XV de Novembro; o recuo obrigatório de 5 metros para construções novas; a concentração de fábricas na Zona Industrial atrás da Estação Ferroviária; a previsão de áreas para o Centro Cívico e para o Centro Politécnico; o Mercado Municipal.

A partir da década de 1950, em função do acelerado ritmo de crescimento do município, o planejamento urbano tornou-se uma necessidade. Em 1965, a administração municipal realizou um concurso público para a elaboração do Plano Diretor da cidade. A proposta vencedora, resultado do consórcio entre as empresas SERETE e Jorge Wilheim Arquitetos Associados, estabeleceu o Plano Preliminar de Urbanismo. Foi esse plano que deu origem ao primeiro Plano Diretor de Curitiba, aprovado em 1966.

A Lei do Plano Diretor define a função social da cidade e da propriedade urbana, além de organizar o crescimento e o funcionamento do município. Consiste em um pacto sociopolítico da sociedade em direção a uma cidade mais humana, participativa, inovadora, inclusiva, funcional, sustentável e que ofereça qualidade de vida para a população. Deve apresentar uma visão de futuro para as próximas décadas, orientando o desenvolvimento do município. Pela legislação federal, a revisão do Plano Diretor deve ocorrer a cada 10 anos.

Também em 1º de dezembro de 1965, houve a criação do IPPUC com a função de zelar pela correta aplicação do Plano Diretor que seria aprovado em 1966. A partir daí, teve início o grande e contínuo processo de planejamento urbano de Curitiba. Primeiramente tratava-se de uma assessoria de planejamento urbano, mas transformado em um instituto onde ganhou autonomia para decidir projetos para a cidade.

Em entrevista a Revista Melhor, o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), Sérgio Póvoa Pires, contou que, no início da década de 1960, a cidade estava diante de um impasse: em ritmo acelerado de crescimento, necessitava urgentemente de um reordenamento urbano. Com este entendimento, foi então contratado um plano diretor para organizar o crescimento e o desenvolvimento da cidade.

O Plano Diretor foi baseado num tripé formado por: uso do solo, transporte coletivo e sistema viário. Desta forma, passou-se a induzir o crescimento da cidade para onde realmente se desejava e a controlar, por exemplo, a altura dos prédios que deve respeitar aquilo que está estabelecido no zoneamento urbano. Quem mora numa ZR1, sabe que ao seu redor não haverá prédios altos e a prevalência será de casas. Junto às avenidas estruturais, existem os prédios mais altos da cidade. A quantidade de andares dos edifícios vai diminuindo à medida que avançam para as áreas mais calmas dos bairros. Desta maneira, todos têm direito à luz do sol.

Desde que foi criado o IPPUC, sucederam-se grandes projetos para a cidade. O IPPUC foi um fornecedor de ideias. Com 50 anos, foram muitas as pessoas que passaram por ali. “Se não fosse pelo IPPUC, Curitiba não seria do jeito que é, porque nenhuma das inovações pode se contrapor ao Plano Diretor. Tudo surgiu a partir dele ou foi delimitado por ele. E é importante porque isso te dá um rumo, te dá um norte. Hoje nós temos mais de 2.600 equipamentos urbanos. Então, imagine o que aconteceu de 1965 pra cá, quando só havia 40 equipamentos urbanos para a prefeitura administrar.

Quando foi feita a Avenida Marechal Deodoro, o departamento de urbanismo foi de porta em porta conversar com os moradores e conseguiu convencer os proprietários que doassem para prefeitura um trecho de rua, pois isso seria bom para os negócios, a rua seria maior, melhor e mais valorizada. Então o conjunto da obra é importante”, revela o presidente do IPPUC.

Tudo foi organizado para induzir o crescimento organizado do município, e isso levou décadas. O Plano Diretor também possibilitou que se preservasse o casario antigo do Centro e fez surgir o Setor Histórico e a Casa da Memória. As diretrizes do Plano levaram ainda à implantação do sistema trinário e à criação do mais eficiente sistema de transporte coletivo do país, circulando pelas canaletas – outra inovação curitibana.

O planejamento urbano busca proporcionar semelhante qualidade de vida para alguém que more no Umbará ou no Água Verde, por exemplo, ofertando o mesmo nível em infraestrutura tais como os equipamentos públicos, a infraestrutura viária, a iluminação, os parques e o transporte coletivo, para que todos possam usufruir.

A sustentabilidade e a modernização, por sua vez, sempre foram pensadas em conjunto. Como uma cidade sem mar, Curitiba tem em seus parques o que seriam suas praias. Então, a cidade mais que dobrou a área de parques durante a última gestão, adicionando mais 8,9 milhões de m². Os parques foram levados também aos bairros mais afastados do Centro, pois desde o princípio eles ajudam em três áreas: contenção de cheias, preservação de flora e fauna e, lógico, o lazer.

Quanto ao trânsito, a ideia é investir em outros modais, tais como as bicicletas, o metrô e os próprios pedestres. O plano estratégico de calçadas também terá um novo decreto que estabelecerá diretrizes para regularizar e melhorar a construção dos passeios, trazendo beleza, segurança, conforto e garantindo a acessibilidade.

Existe também a preocupação em manter vivos alguns elementos históricos da cidade por meio da preservação de casas e edifícios. O primeiro movimento voltado ao patrimônio arquitetônico foi com a delimitação do Setor Histórico. O conceito foi então estendido e foram listadas as unidades de interesse de preservação – mais de 600, ao todo – juntamente a uma legislação que garante vantagens aos proprietários que mantenham seus imóveis.

“Recentemente, houve a votação do projeto de lei elaborado pelo Executivo, na Câmara Municipal. Conseguimos, finalmente, aprovar uma legislação que, de fato, vai proteger os imóveis antigos. Houve a necessidade porque estávamos perdendo muita coisa. Recentemente, também ganhamos uma ação no Tribunal de Justiça para impedir que a casa localizada na Pracinha do Batel fosse demolida. Esta é uma luta diária. Poucos anos atrás, perdemos o conjunto industrial da Mate Leão porque não tinha instrumentos mais efetivos pra salvar esses imóveis. Eles são parte da história e de nosso projeto de cidade, não podemos perder determinados bens”, declara Sérgio.

O presidente do IPPUC explica que o Plano Diretor nada mais é do que um acordo que se tem com a sociedade para um convívio harmônico dentro do espaço urbano. São as regras que você adota para melhor conviver neste espaço. “O que aconteceu aqui é o que ocorre em qualquer lugar: a cidade foi crescendo e hoje em dia não é mais só aquele núcleo de imigrantes estrangeiros. Hoje em dia temos os gaúchos, os paulistas, os nordestinos e tivemos também o crescimento da Região Metropolitana, que trouxe muitas pessoas atraídas por aquela cidade que funcionava”, afirma.

O planejamento urbano da cidade realmente foi pensado em todos os sentidos para que seus moradores vivam melhor. Não há apenas um elemento a ser evidenciado, é o transitar, trabalhar, criar, habitar e, claro, Curitiba também é pensada para as pessoas que vem até a cidade, seja por um curto período de tempo ou para a vida inteira. O planejamento é feito para todo mundo ter acesso à cidade.

“Curitiba é uma cidade de encontros e recebe bem tanto as pessoas que sempre moraram aqui, como as que escolheram a capital para fixar residência. Acredito que todas as cidades são fraternas, cada uma em seu modo de ser. O fato dos curitibanos não ficarem abraçando outras pessoas, logo no primeiro momento, não quer dizer que não somos fraternos”, descreve o presidente.

O planejamento urbano também traz turismo para Curitiba, pois as pessoas querem ver como e porque a cidade funciona. A capital está investindo muito nos turistas. E estes, por sua vez, usufruem da infraestrutura invejável, da limpeza da cidade, dos hotéis extraordinários, da quantidade e qualidade dos restaurantes, dos bons táxis, dos
inúmeros pontos turísticos e culturais e, por fim, da relação custo-benefício. Comparada a outras cidades ditas “mais turísticas”, Curitiba oferece excelência por um custo menor. Os ônibus da Linha Turismo, inspirados nos ônibus de Londres são, por exemplo, considerados os melhores do Brasil pelos especialistas, pois cumprem seus horários, não são caros, as pessoas podem descer algumas vezes e percorrem muitos lugares interessantes. Entre os turistas mais vistos em Curitiba estão os da melhor idade, casais recém-casados e pessoas com filhos.

“Curitiba está apostando cada vez mais em turismo de negócios. Nós vamos criar agora um centro de feiras e aí teremos outro tipo de público. E isso é muito necessário, pois,
atualmente são 14 milhões de pessoas que podem chegar à cidade por via aérea. Logo teremos também o novo Couto Pereira. É um efeito dominó. Hoje em dia, em nossa cidade, não se admite mais fazer um estádio de futebol sem que seja coberto. O sucesso do UFC, realizado na Arena do Atlético, é outro grande exemplo, uma vez que, proporcionalmente, foi um dos eventos mais rentáveis do mundo”, finaliza Sérgio.

 

 

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