Arquitetura de Curitiba, a cidade dos casarões

O século XX é um momento conhecido por grandes modificações em Curitiba. Entre as décadas 20 e 30, houve uma grande expansão nas bases da economia da capital paranaense e ocorreu um amplo desenvolvimento cultural e intelectual.

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Fachada da residência de Julio Garmatter. Crédito: Acervo Museu Paranaense.

Nessa época, de acordo com o IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), a cidade possuía cerca 79 mil habitantes, 45 edifícios públicos, 30 igrejas, 240 ruas com denominação oficial, 13 alamedas, 23 avenidas, 25 praças, 10 largos e 10 travessas.

Podemos encontrar marcos significativos no Centro de Curitiba desse período, um dos principais para o desenvolvimento da cidade. As transformações da arquitetura vieram junto à industrialização brasileira dos séculos XIX e XX. Junto à Primeira Guerra Mundial (1914) chegaram a recessão econômica e as primeiras dificuldades. Em 1930, com o início da era getulista no Brasil, os sinais de modernidade começam a tomar conta de Curitiba. A inovação arquitetônica era moderna, mas ainda existiam resquícios de outras arquiteturas no início do século, como o eclético e o neocolonial.

Os professores da Universidade Tuiuti do Paraná, Rodrigo Ramon Rodrigues e Leandro Nicoletti Gilioli, ambos arquitetos urbanistas, explicam que numa visão geral pode-se dizer que a Curitiba daquele momento passava por inúmeras mudanças sociais e culturais, o que por sua vez culminou em algumas alterações interessantes nos aspectos urbanos e arquitetônicos.

Leandro Nicoletti Gilioli, professor, mestre, arquiteto urbanista e especialista em restauro. Crédito: Acervo Pessoal

“Eram várias as influências para a evolução natural da cidade, como por exemplo, o seu crescimento populacional, oriundo das imigrações e das famílias nativas. Assim encontramos uma cidade já estruturada, com largas avenidas, parques e algumas praças”,

informa Leandro, que é mestre em Restauro pela Universidade de Ferrara, na Itália. Contudo, em função do crescimento alguns males urbanos eram decorrentes na maioria das cidades brasileiras da época, tais como: falta de moradia, insalubridade, entre outros.

Para regular o tema, foi instituído no segundo mandato de Candido de Abreu como prefeito da capital um conjunto de normas e leis conhecido como “Melhoramentos da Capital”. Era necessário ordenar e organizar a cidade, a fim de orientar seu crescimento e modernização.

“A intenção velada dessas legislações era de inibir as construções em madeira, bastante comuns e em grande quantidade na cidade. Contudo, ainda, podemos encontrar na mesma legislação a possibilidade de que as casas pudessem ser em madeira, desde que a fachada principal, voltada à rua, fosse construída em alvenaria”, lembra Rodrigo Ramon Rodrigues, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie.

 

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O professor, arquiteto e urbanista e mestre Rodrigo Ramon Rodrigues. Crédito: Acervo pessoal

As principais edificações do período estavam relacionadas ao poder – seja ele político, religioso e porque não dizer econômico. Afinal, algumas das principais mais belas construções eram de propriedade dos barões da erva-mate ou de comerciantes. De acordo com as pesquisadoras Zulmara Clara Sauner Posse e Elizabeth Amorim de Castro, autoras do livro “As Virtudes do Bem-Morar”, os anos de 1920 a 1930 representam a arrancada na construção de habitações familiares nas cidades, seguindo novos padrões construtivos. Em Curitiba, assim como no Brasil os engenheiros-arquitetos, elaboravam projetos com as mais diversas tendências e reproduziam projetos executados em outros lugares do mundo.

“A preocupação consistia em projetar uma residência de acordo com os modernos padrões vigentes na Europa”, esclarecem.

A busca pelos costumes europeus e a influência dos estilos praticados no velho continente trazidos pelos imigrantes, fizeram que a Curitiba da época fosse uma cidade repleta de novos estilos. “Encontramos o art noveau, o neoclássico, o art decó, entre outros, além do nosso colonial caipira. Podemos, de certa maneira, aceitar que em algumas edificações a presença do que seria o momento de transição entre os estilos clássicos – repletos de ornamentos – e o estilo modernista – que estava nascendo e tomando força, que é definido como o ‘estilo internacional’ – também faz parte do contexto arquitetônico da época em nossa capital”, aponta Rodrigo Ramon Rodrigues.

 

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Simultaneamente, nos centros urbanos são implantadas as redes de água, luz, esgoto, transporte público, telefone, sem os quais é impossível a construção da casa moderna.

“Havia uma setorização dos espaços nas novas moradias. Espaço de estar, íntimo e de serviços encontravam-se bem definidos, incorporando cozinha e banheiros no interior das habitações. Soluções possíveis somente com as novas tecnologias e a presença da infraestrutura urbana, que permitiu a implantação de quartos com banheiros nos pavimentos superiores. Essas residências, afastadas do limite da rua, com grandes jardins frontais, ainda caracterizam a casa moderna”, detalha Zulmara Clara Sauner Posse.

A importância da preservação nos aspectos arquitetônicos está diretamente relacionada à história da evolução humana, pois podemos identificar uma civilização através de sua arte, cultura e costumes. “Mais do que isso, em tempos em que a sustentabilidade está presente nas mais diferentes áreas, nada mais sustentável que permitir que as próximas gerações usufruam do patrimônio cultural construído através dos séculos”, frisam Rodrigo Ramon Rodrigues e Leandro Nicoletti Gilioli.

Como os casarões marcaram a arquitetura de Curitiba

Ainda podemos encontrar edificações com características desse período em toda a extensão do Largo da Ordem, no bairro Batel, na Avenida João Gualberto; na Avenida Munhoz da Rocha e adjacências do Cabral, e também na região central. São inúmeros palacetes e sobrados: o edifício conhecido como Palácio Avenida, o Edifício Moreira Garcez, o Passo Municipal, o Palácio Garibaldi, o prédio da Universidade Federal do Paraná, entre outros.

Vila Olga, de Caetano Munhoz. Crédito: Crédito: PARANÁ. São Paulo: Empreza Editora Brazil, 1923.

Higiene, conforto, requinte e luxo caracterizam os casarões. Nestas regiões as casas abastadas compreendiam áreas construídas entre 500 a 1500m², que dispunham, nas áreas internas, dos materiais mais sofisticados e requintados existentes no Brasil e no exterior. Pisos hidráulicos, louças de banheiro e cozinha belga, telhas francesas, colunas de ferro forjado, mosaico veneziano, tapeçaria persa, tecidos franceses, entre outros, constituíam o universo dos casarões destas décadas.

O atual prédio do Museu Paranaense é uma destas edificações. O museu já passou por diversas sedes, mas desde 2003 está num antigo casarão, projetado Cultura pelo engenheiro Eduardo Fernando Chaves, construído no final da década de 1920. Devido à sua importância para a história, o imóvel foi tombado pelo Patrimônio Cultural do Estado em 1987. Em 2002, foi restaurado e sua estrutura original preservada.

O antigo palacete pertencia ao renomado empresário do ramo frigorífico Júlio Garmatter, que ao viajar para a Alemanha se encantou por uma mansão da cidade de Wiesbaden. Buscando marcar sua posição respeitável dentro da sociedade paranaense, construiu uma praticamente idêntica. Na época havia somente cerca de dez casas daquele porte na capital.

É perceptível a degradação e, por vezes, a total destruição de algumas das edificações de época em nossa cidade. “O meio urbano convive com o dilema de preservar e modernizar. Somente o poder público tem mecanismos para implantar as políticas que serão decisivas, na definição do que irá sobreviver aos novos tempos”, diz Zulmara.

Ela continua: “a preservação dos imóveis pode ser acompanhada de alterações que permitem dar-lhes novo uso, pois mantê- las intactas significa congelá-las, não cumprindo a função para a qual foram planejadas”. Alguns exemplos dessas adaptações são o palacete do Batel, atendendo a eventos; o Casarão Withers com um building, e a Casa dos Leão, ainda ocupada pela família.

Os arquitetos Rodrigo e Leandro acreditam que a maior parte do patrimônio histórico em Curitiba já se perdeu. Ambos deram como pesarosa a perda da residência do Dr. Bernardo Leining, conhecida como a “Casa Paranista”, que fora desenhada por João Turim e era toda decorada com motivos nativos da terra do Paraná. Ainda é possível ver alguns desses motivos num pequeno edifício na Avenida Luiz Xavier, 47, e outros poucos espalhados pela Rua XV de Novembro.

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Outras edificações

O primeiro arranha-céu da capital paranaense foi inaugurado no Centro da cidade no final dos anos 20. A intenção era de que ali fosse um hotel de luxo. Projetado pelo engenheiro e prefeito da época, João Cid Moreira Garcez, na esquina da Avenida Luiz Xavier com a Rua Voluntários da Pátria, o prédio de oito andares sobre o térreo leva o seu nome: Edifício Garcez. Houve um período em que o prédio era considerado o terceiro maior do Brasil, só perdendo para o Edifício Martinelli, em São Paulo, e para o edifício do jornal A Noite, no Rio de Janeiro.

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Em 1927, foi apresentada a perspectiva do Edifício Moreira Garces o primeiro “arranha céo” de Curitiba.

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